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Não lido Ter, 1 de Dezembro de 2015   #1
knk
 
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knk será famoso em breveknk será famoso em breve
Os desafios do baterista moderno

É justo admitir que estamos a enfrentar os mesmos desafios que os "teclistas" (pianistas com veia de "arrangers") enfrentaram no início dos anos 90, e os levou à beira da extinção.

A era do MIDI não começou propriamente com a introdução do MIDI, mas com a expansão dos softwares pela altura do Windows 95 como "Finale's" e "Band in a Box's". Qualquer utilizador tinha acesso aos bancos de General Midi e punha o PC a soar a um Casio em modo automático de acompanhamento. Sim, era horrivel. Mas depressa deixou de ser.
A tecnologia paralela ao potencial MIDI cresceu tão rápido que deixou de ser necessário saber piano para criar orquestrações complexas.
Resultado: os abundantes ditos "teclistas" dos 70's e 80's (e que em Portugal perduraram até meados dos 90's) tornaram-se uma espécie em vias de extinção.
Ouvem-se bandas com magníficas produções. Synths, orquestras, pianos, entre outros VSTi (instrumentos virtuais) tão variados como acordeões ou gaitas de fole, que nos deixam na dúvida se existe, de facto, um ser humano na execução. A resposta, na esmagadora maioria dos casos, é não.

Arrisco em numerologia por experiência e digo que 70% das bandas que fazem grandes arranjos com recurso a VSTi's em estúdio ignora-os ao vivo. Cerca de 20% leva backing tracks e toca por cima, e apenas uns modestos 10% consegue o tão raro executante para os complexos arranjos ao vivo.
Pior ainda é que poucos são os que se preocupam com esse facto. "Ya, levamos backings e o baterista toca com metrónomo". Ouve-se cada vez com mais abundância. Começa-me a parecer que o baterista é prescindível, e só vai porque é "fixe" ter um gajo a batucar lá atrás. Será?

Vejamos o resultado da fraca aposta (das bandas) em teclistas:
- Cada vez existem menos;
- Cada vez são mais vistos como músicos de 2ª por causa do "pfff dá-me 1hr em casa e faço uma malha arpejada de synth bem melhor que isso que tás a fazer com os dedos";
- Mesmo a malta que aprendeu a dar uns toques de piano clássico, tem lá em casa um Yamaha digital baratucho ou um Casio com sons dignos de uma diarreia aguda. Não têm uma workstation decente, nem a experiência de a dominar (convenhamos, deve ser dificílimo ter duas workstations divididas em sons e layers sobrepostas para conseguir meter um pad com orquestra com uma mão e um arpejo de synth e layer de piano com a outra... nem me imagino a fazer uma coisa dessas!)
Por outro lado, os poucos decentes que há, nunca lhes falta trabalho. Isso é certo.

Aos bateristas começa a acontecer o mesmo.

Qualquer gajo pega num EZ Drummer e pinta aquilo como quer. Ligam o "humanizer" e parece que soa a gente! E assim temos a maioria das musicas que ouvimos na rádio.
Não vou mentir. Estão próximos de uma captação de estúdio profissional ao nível de tarolas, bombos e toms (pratos nem tanto). Os samples estão a ficar muito dinâmicos em diferentes velocidades. Até há developers que apostam em captar a mesma nota, na mesma velocidade em duas localizações diferentes da peça de bateria para aumentar o realismo.
Mas esta realidade, apesar de ser positiva para o universo dos produtores caseiros, faz com que o chamado "session drummer" ou baterista de estúdio, seja já uma espécie em vias de extinção.
Tal como no paradigma dos "teclistas", o baterista de estúdio é extremamente requisitado porque já existem poucos minimamente decentes.

E quais as caracteristicas de um baterista de estúdio?

Para além de ser obrigatoriamente "bom", no vasto sentido do termo, é um baterista:
- capaz de dominar vários estilos e entender linguagem musical. Mesmo sem formação precisa de saber traduzir as palavras que lhe são dirigidas em execução musical;
- capaz de tratar qualquer metrónomo por «tu». Não apenas seguir o tempo, tem de conseguir ser musical para além do metrónomo, como se ele não estivesse no caminho;
- capaz de dominar as dinâmicas de todos os elementos que compõem o seu kit. Certo na pancada, fiel ao beat e ao groove da musica;
- capaz de afinar a bateria consoante a necessidade de cada sessão ou música. Porque afinar não é só apertar e desapertar peles;
- ter material adequado. Tentar gravar com uns pratos de 20€ é como fazer um anel de alcatrão e esperar que ele brilhe (exceto, claro, se o objetivo sonoro for mesmo soar a tampa de panela);

Tudo isto para dizer que um "session drummer" vai além do instrumentista que toca bateria. É um músico que toca bateria.

E a generalidade da malta?

Mesmo que não tenham um kit acústico, procurem sempre que possível tocar num. Captem a essência daquilo que é uma bateria e transportem-na para os kits electrónicos que têm lá em casa. Usem e abusem dos VSTi's para melhorar o realismo e não se contentem com presets. Experimentem pratos (reais), sintam as diferenças para os samplados. Exijam dos vossos ouvidos e isso vai-se traduzir em movimentos corporais quando estiverem a tocar.
Abusem dos metrónomos, e da falta deles! Criem pistas em que o metrónomo esteja ausente durante X compassos, e fiquem alguns periodos sem a "muleta" para ver se estão certos quando voltar a apitar nos ouvidos.
Vão a várias lojas, experimentem pratos antes de os comprar. Levem os vossos, os que gostam, e peçam para montar ao lado dos que querem experimentar para ver a compatibilidade harmónica. Brinquem com a afinação das baterias. Percebam a diferença entre a pele de batente e a de ressonância. Se conhecem outros bateristas, peçam-lhes para dar um toque nos kits deles, testem dimensões, peles, marcas, hardware, até ao conforto da peida no banco... Tudo isto fará de vocês mais exigentes e, esperemos, melhores.
Se nos encostarmos à sombra do básico, acabamos a seguir ordens de um guitarrista que fez uma malha com pedais duplos impossíveis com o EZ Drummer em casa e nos enfia com um metrónomo nos ouvidos e diz "faz aquilo que eu gravei". E ainda há quem neste momento pense "ah, mas os profissionais é assim". Não, não é. Nenhuma banda profissional, com musicos a sério, te vai enfiar um metrónomo nos ouvidos e dizer "toca isto assim". Isso só acontece aos grupos modernos de malta que compõem em casa, e há um que acha que fez uma obra prima que só vai soar bem se todos reproduzirem fielmente o que ele gravou, descartando o facto nº1: está a tocar com pessoas. Não são máquinas. As pessoas, mais ainda falando de uma arte comunicativa e performativa, como a música, sentem de maneira ligeiramente a mesma coisa. Por vezes, há 1 em 4 que entende de forma completamente diferente dos outros, e por isso não é compatível no projecto... é a vida. E assim é a música.

Vamos ser bateristas e, acima de tudo, vamos ser músicos!
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Dinâmicas pessoal... dinâmicas!

Última edição de knk : Ter, 1 de Dezembro de 2015 às 16:57.
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